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A IA entregou um relatório técnico e o engenheiro precisou refazer tudo

Foto do escritor: PEDRO AUGUSTO ARCANJO COSTA NUNES
PEDRO AUGUSTO ARCANJO COSTA NUNES
23 de out.
3 min de leitura

A inteligência artificial consegue produzir um relatório técnico em poucos minutos, mas o problema começa quando o documento parece correto, mas contém informações que não correspondem à realidade do projeto.


Em uma discussão entre profissionais de engenharia civil, foram relatados casos de documentos produzidos com IA que precisaram ser refeitos por conter informações incorretas. Em outro relato, uma avaliação de impacto misturava referências normativas europeias e norte-americanas sem o devido critério.


Esses casos mostram um risco que merece atenção: um texto bem escrito pode transmitir uma segurança que seu conteúdo não justifica. E, na engenharia, um erro em um documento pode ultrapassar a página e chegar à execução.


O problema não está apenas no erro, mas na aparência de correção


Um relatório técnico pode apresentar uma estrutura organizada, linguagem adequada e conclusões aparentemente coerentes, mas ainda assim partir de uma premissa incorreta, utilizar uma referência inadequada ou ignorar uma condição específica do projeto.


A dificuldade é que esses erros nem sempre são evidentes em uma primeira leitura. Diferentemente de uma informação claramente absurda, uma resposta plausível pode passar despercebida, principalmente quando quem revisa o documento não confere a origem de cada critério utilizado.


É nesse ponto que o uso da IA exige cuidado. A ferramenta pode ajudar a organizar informações, resumir documentos e preparar uma primeira versão de um relatório mas a qualidade da apresentação não comprova a qualidade técnica do conteúdo.


Na engenharia, o contexto muda a resposta


Uma referência normativa não pode ser escolhida apenas porque parece relacionada ao assunto. É necessário verificar sua aplicabilidade, a versão utilizada, os requisitos contratuais e as condições específicas do projeto.


O mesmo vale para cálculos, especificações e procedimentos executivos. Uma resposta pode parecer adequada em termos gerais e ainda assim não atender às exigências daquela obra, daquele equipamento ou daquela etapa de execução.


Por isso, quando a IA é utilizada para elaborar ou revisar documentos técnicos, não basta conferir se o texto está bem escrito. É preciso verificar as fontes, as premissas, os critérios adotados e a compatibilidade das conclusões com as informações reais do projeto.


Se uma dessas etapas é ignorada, a ferramenta pode acelerar a produção de um documento sem garantir que ele esteja tecnicamente correto.


O grande risco aparece quando o documento entra na rotina da obra


Um erro em um relatório não fica necessariamente restrito à documentação. Dependendo do conteúdo e de como ele é utilizado, uma informação incorreta pode influenciar uma especificação, uma inspeção, uma decisão de engenharia ou a liberação de uma atividade.


Imagine um procedimento elaborado a partir de uma referência que não se aplica à situação analisada. Se essa informação for incorporada à documentação e utilizada sem a devida conferência, a equipe poderá trabalhar com um critério inadequado sem perceber a origem do problema.


Esse é o ponto mais delicado: o erro produzido pela IA pode entrar na rotina como se fosse uma informação já verificada. Quando isso acontece, identificar a origem da falha se torna mais difícil, principalmente se não houver rastreabilidade das fontes e das revisões realizadas.


O tempo economizado na elaboração do documento pode acabar sendo consumido na conferência, na correção e, em situações mais graves, na revisão de decisões tomadas com base naquela informação.


A revisão técnica precisa ir além da leitura


Utilizar IA na engenharia não significa necessariamente abrir mão da qualidade ou da responsabilidade profissional. O risco está em tratar a resposta gerada como se ela já tivesse passado por uma análise técnica.


Antes de incorporar esse conteúdo a um documento oficial, alguns pontos precisam ser verificados:


  • Fontes: as referências citadas existem e sustentam as informações apresentadas?

  • Critérios técnicos: as normas, especificações e premissas são aplicáveis à situação analisada?

  • Contexto do projeto: a resposta considera as condições reais da obra e os documentos vigentes?

  • Rastreabilidade: é possível identificar de onde vieram as informações e quais verificações foram realizadas?

  • Aprovação: o profissional responsável conferiu o conteúdo antes de utilizá-lo ou aprová-lo?


Essas verificações não são uma formalidade adicional. São o que permite distinguir um material produzido com auxílio da IA de um documento tecnicamente validado.


A ferramenta pode ajudar mas a responsabilidade não desaparece


A inteligência artificial tem espaço na engenharia, principalmente em atividades que envolvem organização de informações, análise documental e apoio à tomada de decisão. Mas sua utilização precisa respeitar os limites da ferramenta e as exigências de cada atividade.


Os relatos de documentos que precisaram ser refeitos não demonstram que a IA seja incapaz de contribuir com o trabalho técnico. Mostram que confiar na aparência de uma resposta, sem verificar seu conteúdo, pode introduzir erros justamente onde se espera precisão.


Na construção, uma informação só tem valor quando corresponde às condições reais do projeto e pode sustentar a decisão para a qual será utilizada.


A questão, portanto, não é apenas se a IA consegue produzir um relatório em poucos minutos. É se as informações desse relatório foram verificadas antes de alguém utilizá-las para tomar uma decisão de engenharia.

 
 
 

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