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A IA já consegue encontrar o que passa despercebido na engenharia. Mas também pode inventar o que não existe

Foto do escritor: PEDRO AUGUSTO ARCANJO COSTA NUNES
PEDRO AUGUSTO ARCANJO COSTA NUNES
há 4 dias
3 min de leitura

A inteligência artificial está começando a ocupar um espaço importante na rotina da engenharia. Ela já pode analisar grandes volumes de informações, comparar registros de campo e ajudar a identificar situações que merecem atenção. Mas existe uma diferença importante entre encontrar um padrão nos dados e produzir uma resposta que realmente corresponde à realidade da obra.


Essa diferença ajuda a entender por que a IA pode ser uma aliada em algumas atividades e uma fonte de problemas em outras. Quando utilizada para analisar informações verificáveis, ela pode ampliar a capacidade de avaliação das equipes. Quando suas respostas são aceitas sem conferência, pode introduzir erros em documentos, análises e decisões técnicas.


Quando a IA ajuda a identificar desvios na execução


Em uma obra, cada atividade pode gerar uma quantidade significativa de informações. Na execução de fundações profundas, por exemplo, os registros podem incluir tempos de perfuração, volumes de calda de cimento e dados operacionais dos equipamentos. Comparar manualmente centenas de registros exige tempo e pode dificultar a identificação de comportamentos que fogem ao padrão.


Em um caso documentado, uma solução de inteligência artificial foi utilizada para analisar os registros de execução de 1.372 estacas em uma mesma obra. O sistema comparou os dados e sinalizou diferenças que mereciam investigação, incluindo um consumo de calda acima do padrão observado no conjunto analisado. A ferramenta não determinou, sozinha, que havia um defeito na fundação, mas ajudou a direcionar a atenção da equipe para um registro específico.



Esse tipo de aplicação mostra como a IA pode contribuir para a execução: organizar informações, comparar comportamentos e indicar onde uma análise mais detalhada pode ser necessária. A decisão sobre a existência de um desvio e suas possíveis causas continua dependendo da verificação técnica.


Quando a IA transforma dados em informações úteis para a equipe


Outra aplicação está no acompanhamento de obras por meio de imagens e registros de campo. Sistemas de visão computacional podem analisar fotografias para apoiar a identificação de atividades, acompanhar o avanço físico e sinalizar diferenças que precisam ser verificadas pela equipe responsável.


Em vez de depender apenas da análise manual de um grande volume de imagens, os profissionais podem utilizar essas ferramentas para localizar informações relevantes com mais rapidez. Isso pode facilitar o acompanhamento de serviços e ajudar a identificar situações que merecem uma conferência em campo.


Mas uma fotografia não apresenta necessariamente todas as condições envolvidas na execução. Uma diferença visual pode ter diversas explicações, e a imagem isolada não comprova que existe uma não conformidade. Para que a análise tenha valor, é necessário comparar o resultado com o projeto, os critérios aplicáveis e as condições reais da atividade.


O problema começa quando uma resposta parece correta demais


Se a IA pode ajudar a encontrar padrões em milhares de registros, também pode produzir respostas incorretas com uma apresentação convincente. Isso acontece porque gerar um texto coerente não significa necessariamente compreender todas as condições técnicas envolvidas no problema.


Na engenharia, uma resposta pode utilizar termos adequados e apresentar uma conclusão bem estruturada, mas partir de uma premissa incorreta, citar uma referência inadequada ou ignorar uma informação importante do projeto. Se esse conteúdo for incorporado a um relatório ou procedimento sem a devida revisão, o erro pode chegar a outras etapas do trabalho.


Por isso, a aplicação da IA exige critérios claros de verificação. É necessário conferir as fontes, avaliar se as informações correspondem ao contexto analisado e verificar se as conclusões são sustentadas pelos dados disponíveis. Quanto maior o impacto de uma decisão, menos aceitável é depender apenas de uma resposta automatizada.


O ganho está em usar a IA sem abrir mão da análise técnica


A inteligência artificial pode tornar determinadas atividades mais ágeis e ajudar profissionais a encontrar informações que poderiam passar despercebidas. Mas isso não significa que todas as suas respostas sejam confiáveis ou que a tecnologia consiga substituir a avaliação das condições reais de uma obra.


O uso responsável começa por entender para quais tarefas a ferramenta é adequada, quais são suas limitações e como os resultados devem ser conferidos antes de serem utilizados. A IA pode apoiar uma análise, organizar dados e apontar possibilidades, mas cabe ao profissional verificar se as informações fazem sentido e se podem sustentar uma decisão de engenharia.


O avanço da IA na construção não depende apenas do que ela consegue produzir, mas também da capacidade dos profissionais de avaliar o que ela entrega. Afinal, utilizar uma ferramenta para encontrar informações é uma coisa; confiar em seus resultados sem verificar se estão corretos é outra completamente diferente.

 
 
 

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